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não há mais horizonte. Agora tudo é presente. E isso é bom.)


Os 50 fecham a tampa em relação a quem você é, quem você foi, quem você poderia ter sido e quem você não chegará a ser.

É isso. 

Aos 30, você deixa de ser júnior. Vira gente grande. Goste você disso ou não.

Aos 40, você amadurece. Vira um dos adultos na sala. Seus gestos ficam um pouco mais comedidos. Sua voz ganha qualquer peso. Busque você isso ou não.

Aos 50, você envelhece. Você já passou pela metade da vida. É indumento estabelecido: há mais tempo e vida detrás de você do que à sua frente

E não há zero que você possa fazer a reverência.

***

Aos 20 e aos 30, de modo universal, você está subindo o morro. São anos de formação. Em que você absorve, experimenta, escolhe.

Aos 40 e aos 50, você alcança o platô, passa a caminhar na reta. Você está no seu auge, qualquer que seja ele. O tabuleiro está posto e você desenvolve o jogo que conseguiu montar para si.

Depois é descer o morro. Aos 60 e 70, imagino eu, trata-se de curtir o último ciclo. De usufruir daquilo que você construiu – família, patrimônio, relacionamentos, liberdades 

Você vai se aposentando dos projetos. Dos compromissos. Vai abrindo mais tempo para destinar àquelas coisas que realmente são importantes para você – às quais durante muito tempo você talvez não tenha conseguido dar a devida atenção, em nome de lucrar a vida. Agora é hora – a última chance – de curtir a vida.

***

Prestes a completar 50, do que sinto mais falta é poder fantasiar um pouco mais com o horizonte. Você tem menos alternativas em seu caminho. A vida fica mais reta e previsível.

Não dá mais para adormecer grandes projetos. Os objetivos agora são mais práticos, concretos, próximos, de limitado prazo: fazer 150 abdominais e estirar todo dia, para não entrevar de vez. Passar mais tempo com seus filhos, antes que eles caiam no mundo de vez. Conviver mais com seus pais, porque eles não estarão cá para sempre. 

Não que aos 20 ou 30 você exercesse aquelas opções grandiosas que batiam asas dentro do seu peito. Não que você ficasse saindo da estrada para checar todas as possibilidades que enxergava pelo caminho. Mas era bom poder sonhar – com o lastro de um recurso que você tinha à disposição: décadas de vida adiante

Tudo era provável. Ao menos no projecto onírico. 

Depois dos 50, não é mais assim. Nem mesmo no terreno da imaginação.

O que implica deliberar o que fazer com todas essas ideias que você guardou no coração e que continuam surgindo na sua cabeça.

Escolher alguns projetos para tocar no último quarto da partida?

Enterrar em definitivo todos os outros desejos? Desistir dos planos que você tinha para o horizonte? 

Eis o ponto: não há mais horizonte. O longo prazo acabou. 

Ou você faz agora ou é melhor olvidar. (Esse não deixa de ser um chamado interessante que a vida faz – e que a gente em universal ignora.)

(Digo isso, mas não posso deixar de considerar que, tanto para meu pai quanto para minha mãe, os 50 representaram exatamente o contrário disso: um ponto de inflexão importante – e dinâmico, vitorioso – na construção da vida que ambos desejavam ter. Ou seja: a curva nem sempre acontece do mesmo jeito para todo mundo.)

***

Das coisas que sonhei fazer, é improvável que vá encaminhar um filme. (Muito menos lucrar um Oscar. Há uns anos, eu tinha até o exposição prestes.) 

Dificilmente escreverei um roteiro. Ou me dedicarei ao audiovisual porquê minha principal linguagem.

Nenhuma das boas canções que compus com meu parceiro Emerson Ramos será gravada e distribuída profissionalmente. 

Não aprenderei a jogar capoeira. 

Não conseguirei nem mesmo voltar a jogar futebol, meu esporte preposto. (A decadência física generalizada virá antes do dia em que a minha lombar me permitir outra vez decorrer sem sentir dor.)

Talvez consiga morar um tempo em Paris e em Roma.

E morrer perto do mar. Ou no meio do mato, escondido no basta de uma serra.

***

Mesmo entre as coisas que ainda farei, nos projetos que conseguir abraçar daqui para frente, há um botar de expectativas.  

Aos 50, você deixa de se iludir a seu próprio reverência. Ou em relação ao tipo de farinha que você tem no saco. É hora de reconhecer o que você pode e o que não pode fazer.

(Sempre houve coisas que eu não queria fazer, mas tive ao longo da vida grande dificuldade de consentir que houvesse alguma coisa que eu não pudesse fazer.)

Chega uma hora em que é preciso encarar seus próprios limites. Sem ilusão.

Eu sou muito feliz com a minha escrita. E acho que tenho conseguido tocar algumas pessoas com algumas coisas que tenho escrito… Mas é provável que eu não vá produzir um best-seller. E nem uma obra literária relevante, que me transcenda no tempo

Estou satisfeito com a curso que consegui desenvolver na indústria da Informação, primeiro porquê executivo, depois porquê empreendedor. No mundo dos negócios, creio que consegui edificar algumas obras relevantes. Tenho sido recompensado por isso e acho que consegui partilhar um pouco de felicidade e de ganhos para outras pessoas também.

Mas é muito provável que não vá expandir minhas empresas de modo a edificar uma corporação. Continuarei sendo um empreendedor. Não me tornarei um empresário.

***

E não é só o olhar para frente que muda aos 50 – também o pretérito ganha contornos mais definidos.

A gente faz um balanço mais delicado do que construiu, dos caminhos que trilhou. E é inevitável a pergunta: logo é isso que eu sou? Logo é isso que eu fui? Foi isso que fiz da vida? 

Quando tínhamos o horizonte pela frente, era provável também sonhar com o legado que íamos deixar. Quando o pretérito está construído, não é mais provável projetar porquê terá sido nossa passagem pelo mundo – ela já é. Ou já foi. 

Você é o que você conseguiu ser. E não o que você gostaria de ter sido 

Da mesma forma, você dificilmente será, daqui para frente, alguma coisa muito dissemelhante do que tem apanhado ser até agora.

***

Talvez fazer 50 seja desabar na real. Encarar a morte dos sonhos – a primeira das várias mortes com que teremos de mourejar daqui para frente. 

E perceber que o número de dias com sol que temos adiante é pequeno. E que os verões que ainda veremos são insuficientes. E que são escassos os orgasmos que ainda nos restam. E que já não poderemos saber todos os lugares que um dia demos por perceptível que visitaríamos. 

Em evidente sentido, isso tudo sempre foi assim. Mera quimera. Evanescendo num quinhão miserável de tempo. 

Mas agora percebemos isso com mais perspicuidade. E rijeza.

E, talvez, com alguma formosura.

 

Adriano Silva é fundador da The Factory e Publisher do Projeto Draft, Founder do Draft Inc. e Chief Creative Officer (CCO) do Draft Canada. É responsável de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV A República dos Editores.

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