Qual o legado da anulação da escravatura?

1c835148ec977bfbb2c8a6e772d5f07a.124.70 Qual o legado da anulação da escravatura?

Anônimo. Baiana. Segunda metade do século XIX. Óleo sobre tela. 95,5×76,5cm. Museu Paulista. São Paulo.

Luis Gustavo Reis*, Pragmatismo Político

Todo dia 13 de maio relembramos que o Brasil patrocinou um dos regimes mais bestiais da história: o tráfico e a escravização de seres humanos.

A escravidão vigorou por essas paragens de meados de 1530 até 1888. Fomos um dos últimos países do planeta a suprimir esse hediondo regime. São vários os títulos sádicos atribuídos aos brasileiros, desonrosos episódios que nos envergonham e nos apequenam definitivamente.

Foram quase 400 anos de cativeiro e um número incalculável de sonhos dizimados, famílias despedaçadas e vidas interrompidas. Brasil e Roma ostentam o título de maiores sociedades escravistas da história da humanidade. Assim porquê os romanos, forjamos com o sangue daqueles que trucidamos nos pelourinhos o DNA da nossa identidade pátrio.

Calcula-se que o infame negócio de escravos tenha consumido entre 10 e 15 milhões de seres humanos, que foram arrancados da África para serem escravizados nas Américas. Desse totalidade, aproximadamente 40% desembarcaram no Brasil.

Distribuídos de Norte a Sul do nosso país, os escravizados foram utilizados diferentes serviços: da degradante rotina nas lavouras às exaustivas tarefas domésticas, era sobre ombros negros que insidia o peso da labuta diária.

A crueza dos senhores de escravos e os horrores do escravismo é conhecimento generalidade. Os livros didáticos de história são pródigos edificar explicações enviesadas. Apresentam, com raras exceções, escravizados sempre situação de chicote, penúria, submissão, suma, vitimizados tempo integral.

A quem serve tecer um pretérito de os negros eram coisificados e sem vontades próprias? Quantas crianças irão perfurar os livros e se identificar com seus ascendentes? Quantas autoestimas destroçadas por essas perversas narrativas que apresentam um preto sempre inferiorizado?

Que a violência foi imperativa durante a escravidão é inquestionável, porém de houve escravidão, houve resistência. Os cativos não eram vítimas e nem heróis o tempo todo. S escravizado aparentemente pacato de hoje, tornava-se o rebelde do dia seguinte.

G um equívoco confiar que o regime escravista se assentava exclusivamente na violência. Pelo contrário, uma complexa teia de negociação e conflito pautou as relações entre senhores e escravizados. Quando a negociação falhava ou era desrespeitada por uma das partes, abriam-se os caminhos da ruptura.

Mesmo sob a ameaço estável do chicote ou vigiados pelos olhos “atentos” dos feitores, os escravizados incendiavam plantações, agrediam e matavam senhores, enganavam capitães-do-mato, além de promoverem constantes rebeliões. Em 1857, – pasme! – os negros cruzaram os braços na cidade de Salvador, Bahia. Insatisfeitos com uma medida municipal, resolveram paralisar as atividades e entrar greve pleno regime escravista.

A despeito dos horrores, diversas negros superaram o estigma da escravidão, reinventaram suas vidas e atuaram ativamente porquê sujeitos históricos.

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S notável catedrático, Eduardo Antonio Bonzatto, listou seu livro (Aspectos da História da África, da Diáspora Africana e da Escravidão. Ícone, 2011.) alguns negros que encontraram nas fissuras da ordem escravista, espaços de autonomia para exercerem suas potencialidades. São eles:

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